Novo modelo de prótese de voz é tema de pesquisa na Universidade Federal de Santa Catarina

Desenvolver um novo modelo de prótese de voz (válvula traqueo-esofágica), a ser introduzido no mercado nacional, é o tema da pesquisa do Laboratório de Vibrações e Acústica do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade Federal de Santa Catarina, coordenada pelo Prof. Ph.D Andrey Ricardo da Silva.

A pesquisa tem como objetivos desenvolver uma válvula por similaridade, baseando-se nas atuais válvulas disponíveis no Brasil e desenvolver a patente de uma prótese nova, que possibilite ajuste de acordo com as características fisiológicas de cada paciente. O projeto é de suma importância, já que a Organização Mundial de Saúde (OMS) classifica o Brasil como país líder em incidência de câncer de laringe, superando os 7.500 casos em 2014.

Andrey Ricardo da Silva explica que quando o diagnóstico é realizado a tempo, o número de pacientes com sobrevida livre da doença é considerado alto, ultrapassando 73% dos casos. “Apesar disso, aproximadamente 80% desses pacientes devem se submeter à laringectomia total, implicando em consequências dramáticas, dentre as quais a mais severa é a perda irreversível da voz natural”, ressalta.

O projeto da válvula por similaridade está sendo conduzido pelo Laboratório de Vibrações e Acústica o Laboratório de Biomecânica, ambos da UFSC, e o Centro de Pesquisas Oncológicas de Santa Catarina (CEPON) com financiamento da FINEP. A expectativa é de que a inserção do produto no mercado seja rápida, mediante à condução de análise pré-clínica. A patente do produto permitirá a detenção de uma nova tecnologia, inteiramente brasileira, relacionada ao restabelecimento da voz. A tecnologia permitirá melhoramentos consideráveis na qualidade da voz e o aumento significativo da taxa de sucesso na utilização desses dispositivos. Em ambos os casos, a fabricação da válvula no Brasil reduzirá de forma considerável os custos relativos à sua distribuição, aumentando o acesso da população a este tipo de tecnologia.

Prof. Andrey Ricardo esclarece que a válvula traqueo-esofágica é o método de reabilitação mais efetivo para o resgate da fala em relação a outros métodos já em desuso, como a eletrolaringe e a voz esofágica. “Este dispositivo consiste em uma válvula uni-direcional que permite o uso do ar pulmonar para a indução de vibração dos tecidos remanescentes do esôfago, os quais passam a produzir som. O dispositivo é posicionado entre a traqueia e o esôfago através de uma fístula e impede a passagem de alimentos e mucosa para o pulmão”.

O uso da válvula garante ao falante um tempo máximo de fonação muito próximo ao da voz natural, além de conferir uma qualidade da voz semelhante à de um falante normal com rouquidão moderada. Tais características promovem maior fluência e controle na fala, aumentando a sua inteligibilidade e aceitação social. Além disso, o maior controle do ar expiratório possibilita as variações de frequência necessárias para a maior naturalidade na transmissão de emoção e de sentido.

Embora seja o método de reabilitação da voz mais efetivo atualmente, a válvula traqueo-esofágica atual é incapaz de ajustar-se às características fisiológicas intrínsecas a cada paciente. Isto ocorre porque o dispositivo atual atende às características fisiológicas médias de pacientes do sexo masculino e fenótipo norte-europeu. Além disso, a válvula não prevê variações das propriedades mecânicas dos tecidos do sistema traqueia-esôfago que ocorrem devido ao tratamento radioterapêutico pós-operatório. Em muitos casos, este tratamento promove o enrijecimento dos tecidos, exigindo uma alta capacidade pulmonar para a indução da vibração que produz a voz. Esta limitação torna-se ainda mais agravante em pacientes com mais de 60 anos, nos quais a capacidade pulmonar é naturalmente reduzida. Dessa forma, a atual válvula torna-se ineficaz em muitos casos.

O papel da voz

A voz tem papel fundamental na comunicação, sendo o veículo que, além das palavras, transmite as características físicas, emocionais e sócio-culturais que constituem parte importante da identidade de uma pessoa. Neste contexto, pode-se entender o grande impacto que a perda da voz causa na vida do indivíduo, ao limitar o convívio social e familiar mediado pela comunicação oral.

Os dados estatísticos apresentados pelo relatório da Organização Mundial da Saúde (WHO-QOL e SF-36) demonstram que a restituição da voz pode resgatar de forma significativa a qualidade de vida de pacientes laringectomizados, permitindo que estes voltem a manter atribuições sociais perfeitamente normais no trabalho e na vida social.

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